terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Meia Luz

Ela abre a porta e se depara com o olhar pacato de sempre e aquele sorriso a meia boca que abrem pequenas covas no canto dos lábios.
Um misto de tristeza e frustração a toma, mas ela resiste e o convida para entrar.
Ele quer sair, mas ela esta desanimada pois ameaça chover.
Mesmo assim vai para o banho.
Pensa: “tudo bem, tanto faz.”
Ele se distrai com os livros e os CDs’s na estante.
Ela põem um vestido com fitas e bordados.
Ele é tardado por mulheres usando vestido.
(Acredito que já Chegou a deseja r ser mulher um dia para poder usar um.)
Ela se maquia, trança o cabelo: procedimento padrão.
Começa a chover, ela pensa: Tanto faz.
Sente vontade de chorar, mas já se acostumou.
Ele a olha rasa e tenta abraça-la.
Ela se esquiva: “Agora Não”.
"O que você tem? "
Ele pergunta, mas no fundo não se importa... Pra ele tanto faz se o abraço é sincero ou não, ou ainda se ela o abraça ou não. O importante é que ela esteja lá, e com a presença dela se renovam as esperanças de poder abraçar.
E a esperança de receber um abraço é muitas vezes mais importante do que o abraço.
“Agora quero ler um trecho do livro pra você.”
Este é um habito que ela tem.
Não se trata de ler para ele ou para qualquer pessoa que seja.
Ela sente menos solidão quando pode compartilhar sua leitura com alguém
“Claro!”
Ele fica feliz ao perceber que o livro em suas mãos aparenta não ter mais que 150 páginas.
Ela se acomoda na cadeira esticando as pernas e apoiando as na cama.
Ele não consegue deixar de notar que seu joelho esta descoberto.

*“No inicio da minha detenção, no entanto o mais difícil que tinha pensamentos de homem livre. ::
Mas isto durou alguns meses. Depois só tinha pensamentos de prisioneiro. Aguardava o passeio diário no pátio ou a visita do advogado. O resto do meu tempo eu coordenava muito bem. Nessa época pensei muitas vezes que se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco de árvore, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu acima da minha cabeça, eu teria me habituado aos poucos. Teria esperado a passagem dos pássaros ou os encontros entre as nuvens tal como esperava aqui a estranhas gravatas do advogado, e, como num outro mundo, esperava até sábado para estreitar nos braços o corpo de Marie. Ora a verdade afinal é que eu não estava em uma árvore seca. Havia pessoas mais infelizes do que eu. Era, aliás, uma ideia de mamãe, e ela repetia com frequência que acabávamos acostumando-nos a tudo.
“Não é fantástico?”
Ele não sabe o que responder.
“Será que de certa forma somos tão prisioneiros quanto o condenado em sua cela?”
E ele pensa que já esta ficando tarde.
Parece um bom livro, quero ler depois. Me empresta??
Agora além de triste e sozinha, se sente ridícula por tentar compartilhar o "incompartilhavel".
Se sente também egoísta por pensar tanto em si mesma.
Eles chegam tarde e sem muito que dizer deitam se para dormir.
Ela apaga luz depois de ler algumas páginas do livro.
Desta vez em silêncio.
Ele ficou incomodado com a claridade, mas jamais ousaria dizer.
Enfim ele adormece.
Ela o espia.
No fundo acha bobagem se sentir sozinha quando se tem alguém respirando tão perto.
Não é mais tão importante, então tanto faz.
Como não importa mais se ele passou a semana toda pensando o quanto seria bom abraça-la.
Ela sente pena de todos os dependentes destes pequenos vícios. Vícios que são tão ou mais prejudiciais que o habito de fumar.
Ela esta tentando parar de fumar mas não diz nada a ninguém.Caso fracasse somente ela saberá.
Ele dorme e segundo ele mesmo nunca sonha com nada.





* Albert Camus, O Estrangeiro

5 comentários:

Thiago Almeida disse...

Lindo demais. Extremamente visual!
Pensa na hipótese de fazer um filme baseado neste conto, hein!?

Parabéns, Greta!
Saudades de vc, querida.

Até mais!

[camille paixão] disse...

Muito bom, próximo, cotidiano, um tanto solitário e realmente belo.

selos pra vc lah no http://www.01brainstorm.blogspot.com/

bjO=]

Bala Salgada disse...

Lindo texto querida.

Bala Salgada disse...

Como as mulheres adoram ser abraçadas, acho que admiradas também. E questionam muito mais o relacionamento que eles.

Greta Poltronieri disse...

com toda certeza,Bala.